por Carlos
Cardoso Aveline
Jornalista e presidente da União
Protetora do Ambiente Natural, UPAN
(Caixa Postal 189, São Leopoldo,
RS, CEP 93001)
Revista Planeta, Número 233,
Abril 1991, pág. 19-23
A cada dia cresce
o número de automóveis nos grandes centros urbanos. Proporcionalmente,
aumentam os índices de poluição, os congestionamentos, as
mortes e ferimentos por acidentes. Experiências realizadas
em várias partes do mundo mostram que investir em sistemas
de transporte coletivo e em meios alternativos de locomoção
– como a bicicleta – é a maneira mais segura de se evitar
o caos nas metrópoles.
Os
meios de transporte podem definir uma civilização, pois
refletem a maneira como se usa o espaço e o tempo. Nas sociedades
antigas, o transporte era lento e vital: usava-se o boi,
o cavalo, o elefante. Viaja-se a pé, em contato direto com
a paisagem, e era possível sentir no corpo o vento, a chuva,
o frio.
Estudando
a origem do zenbudismo, Alan Watts escreveu que não havia
nada de sentimental no convívio dos antigos mestres com
o meio ambiente, porque eles experimentavam a vida junto
à natureza não só quando esta era quente e agradável, mas
também quando esta estava congelada, úmida e tempestuosa
(1). A intimidade do homem com a natureza não tinha apenas
momentos cômodos, e as viagens não eram sempre fáceis. Mas
não havia nada isolando o viajante do meio ambiente, como
nos meios de transporte modernos.
Lin
Yutang, em seu livro A importância de Viver, esboça
uma “filosofia da viagem que consiste na capacidade de ver
coisas”, e defende a idéia de que viajar é antes de tudo
andar pelo mundo para conhecer os seus diferentes aspectos
naturais e humanos. Yutang pensava que o Ocidente tinha
muito a aprender com a arte taoísta de viajar contemplando
o mundo. E protestou: “Viajar, antes, era um prazer. Agora
é uma indústria.” (2)
A
maneira suave de estar e deslocar-se pelo mundo, ensinada
pelo pensamento oriental, perdeu-se tão completamente, hoje
em dia, que talvez seja hora de recuperá-la.
Quem
não sabe da importância da indústria do petróleo na economia
atual? E da indústria automobilística ou das siderurgias
que produzem ferro para os automóveis? Na verdade, o transporte
constitui o elemento dinâmico na ocupação de um território
qualquer. E pode ser violento ou suave, rápido ou demorado,
caro ou barato.
Quando
pensamos na transição para uma sociedade que permita a plena
retomada do crescimento interior do ser humano, é impossível
ignorar a questão do transporte.
Consideremos
o automóvel. Fabricado para transportar quatro ou cinco
pessoas à velocidades que variam de 80 a 160km horários,
em cidades como Rio, São Paulo ou Porto Alegre, nosso carro
avança penosamente à velocidade de 15 ou 25km por hora.
O automóvel é o líder do pólo metal-mecânico, um dos carros-chefes
da economia nacional e mundial. Mas em todo o mundo as ruas
continuam cada vez mais entulhadas. As cidades modernas
estão subordinadas ao seu domínio e o pedestre sabe que
caminhar é arriscado. O automóvel foi adotado numa tentativa
de ganhar tempo, mas hoje o que ocorre é o contrário.
Bilhões
de dólares perdidos – Dizem os
especialistas que, nos próximos anos, os custos sociais
e econômicos do congestionamento do tráfego se multiplicarão,
caso o carro continue a dominar os esquemas de transporte.
A Inglaterra, por exemplo, é um país cujo sistema de transporte
público (trens e ônibus) é muito maior e melhor que o brasileiro.
Mesmo assim, a Confederação da Indústria Britânica estima
que, devido ao automóvel, o congestionamento de trânsito
em seu país causa prejuízos de 24 bilhões de dólares por
ano – incluindo tempo de trabalho perdido pelos empregados
que se atrasam e aumentos extras de preços de mercadorias
por causa de custos maiores de distribuição.
Nos
Estados Unidos, a Administração Federal de Estradas calcula
que os engarrafamentos de trânsito fazem o país perder 9
bilhões de dólares a cada ano. Se tudo continuar como está,
esta cifra será cinco vezes maior em torno do ano 2005,
saltando para 45 bilhões de dólares, porque haverá até lá
um aumento de 50% no número de carros nas ruas. A isto não
foram acrescentados os prejuízos econômicos da poluição
atmosférica dos automóveis, que atinge em cheio a agricultura
e contribui para a morte de lagos, rios e florestas.
O
modo convencional de enfrentar o problema do congestionamento
consiste em asfaltar mais estradas e substituir o solo natural
pelas autopistas de alta velocidade. Um recente estudo do
Instituto Worldwatch, de Washington, tira dos engenheiros
essa ilusão. “Os técnicos em planejamento de transporte
estão descobrindo que construir mais free-ways só atrai
mais carros, estimulando pessoas a deixar o transporte coletivo
em troca do automóvel”, explica um estudo recente de Marcia
Lowe (3). Em 1988, o Departamento de Transporte da Califórnia
concluiu que nem um programa de 61bilhões de dólares para
construção de rodovias, nem qualquer outro, poderia resolver
os seus problemas de trânsito.
Mesmo
que tais soluções fossem eficazes, não seriam corretas.
Uma cidade moderna cede até 1/3 da sua superfície para ruas,
estradas e locais de estacionamento. Um ex-diretor da Administração
de Estradas norte-americana, Robert Farris, explica: “Não
podemos mais ver como alternativa única aos engarrafamentos
a idéia de asfaltar mais e mais. O tempo é muito pouco para
isso, falta dinheiro e não há mais espaço disponível no
solo.”
E
o que dizer, então, dos países pobres? Vamos supor, por
um instante, que a China fizesse a sua opção pelo automóvel
e decidisse asfaltar a mesma quantidade de solo por habitante
que os Estados Unidos. Nesse caso, seriam asfaltados 64
milhões de hectares, ou mais de 40% da superfície agrícola
chinesa. A população não teria como alimentar-se.
O
automóvel, como mercadoria, adquiriu certo caráter mágico
na sociedade hoje. E funciona não só como atestado de sucesso
pessoal, mas também como uma versão moderna da armadura
do cavaleiro medieval defendendo o cidadão de classe média
dos perigos da cidade. O cidadão está de certo modo asilado
da natureza, porque vive fechado, em casa ou no trabalho.
Entre um lugar e outro, está trancado no automóvel, avançando
lentamente nos engarrafamentos, em velocidades comparáveis
a de uma carroça ou bicicleta.
Custos
ignorados – Com
a ideologia do petróleo, a sociedade de consumo oculta os
custos reais da opção pelo automóvel, normalmente descrita
como natural ou inevitável. “Um dos custos menos percebidos”,
diz Marcia Lowe, “são despesas com polícia, bombeiros e
ambulâncias”. Cerca de 40% dos gastos do Departamento de
Trânsito de Pasadena, Califórnia , são com automóveis: acidentes,
roubos e controle do tráfego. Só os governos locais dos
Estados Unidos gastam mais de 60 bilhões de dólares por
ano para controlar o trânsito automobilístico (4).
Há
também, a violência. Na Alemanha, são 23 mortos por dia
em acidentes, e mais 1.200 feridos. No Brasil, morrem cerca
de 25 mil pessoas por ano – o que dá uma proporção de quase
70 mortos por dia em acidentes de trânsito – e 350 mil ficam
feridos em 700 mil acidentes anuais. São números dignos
de uma guerra militar. As estimativas de prejuízos econômicos
relacionados a esses acidentes variam em torno de 30 milhões
de dólares por semana; sem contar que não é possível colocar
preço em vidas perdidas e famílias desestruturadas.
A
cada dia que passa, mais cidadãos, governos e até empresas
despertam para a realidade. A civilização do petróleo é
também, a civilização dos engarrafamentos de trânsito, do
efeito estufa, da chuva ácida e dos atropelamentos de gente
que quer fazer uma coisa tão simples como atravessar uma
rua. O automóvel é um bom meio de transporte, mas não pode
ser o único. E a realidade está dando lições claras a esse
respeito.
A
Pizzas Dominó, uma cadeia de pizzarias de entrega rápida
espalhada por grandes cidades norte-americanas, conseguiu
diminuir o tempo de entrega em 75% quando adotou bicicletas
para a tarefa em Washington, cinco anos atrás. Desde então,
adotou a bicicleta como meio de transporte para todo o país,
em distâncias curtas e médias, nos centros urbanos.
A
polícia da cidade de Seattle, na costa oeste dos Estados
Unidos, descobriu que as equipes de vigilância são mais
rápidas quando se deslocam em bicicletas do que quando avançam
em veículos de quatro rodas. De bicicleta, a polícia chega
silenciosamente e tem livre acesso a locais que um carro
não pode alcançar. Desde que Seattle criou esse sistema,
em 1987, mais de cem cidades norte-americanas seguiram seu
exemplo, inclusive Boston, Dallas, Miami e Los Angeles.
Opcão
econômica e saudável – Nos
Estados Unidos, o número de pessoas que vão de bicicleta
para o trabalho duplicou nos últimos cinco anos, atingindo
a casa dos 3,2 milhões. Em quatro, dos últimos seis anos,
a venda de bicicletas excedeu a venda de automóveis no mercado
doméstico norte-americano. Em Manhattan, Nova York, 10%
do trânsito de veículos durante a semana é feito por bicicletas,
em sua maior parte por “office boys” e mensageiros. Muitos
profissionais, ecologicamente conscientes, vão de bicicleta
para o trabalho. Outros fazem a opção para economizar dinheiro,
praticar exercício, manter a saúde ou apenas passar à frente
dos engarrafamentos de todo dia.
Na
Holanda e na Dinamarca, 20% a 30% de todas as viagens urbanas
são feitas sobre duas rodas com pedais. Outras parcelas
importantes do trânsito na Holanda correspondem a barcos,
bondes, ônibus e trens.
Na
Alemanha, como na maior parte dos países do hemisfério norte,
os governos locais descobrem que a melhor solução é combinar
a bicicleta com o trem. Para isto, aumentam os depósitos
gratuitos de bicicleta junto às estações de trem e metrô.
Quando o terreno não é muito íngreme, não há melhor meio
de transporte do que a bicicleta para distâncias até 6km.
As bicicletas modernas, com até 18 ou 21 marchas, levam
a economia de esforço a níveis inéditos, ampliando as distâncias
que se pode cobrir sem dificuldade.
Uma
bicicleta comum exige de seu proprietário cerca de 22 calorias
por quilômetro rodado. É a maneira mais econômica de deslocar-se.
Uma caminhada de 1 km consome 62 calorias, um trem gasta
550 calorias por passageiro/km, um ônibus 570, e um automóvel
com um só ocupante gasta 1.150 calorias/km.
O
automóvel segundo os estudiosos de alternativas para o trânsito,
não é um tabu inquestionável, e só parece uma boa alternativa
para todos os problemas de trânsito porque está sendo subsidiado
em muito do seus custos. As ferrovias, hidrovias e ciclovias
deveriam ser priorizadas em esquemas futuros de transporte
intermodal, isto é, que combinem diferentes potencialidades.
No
Japão, por exemplo, o trem bala que avança 250 km horários
liga Tóquio a Osaka em menos de três horas e transporta
um total de 100 milhões de passageiros por ano. Na Alemanha
o governo subsidia o transporte coletivo para forçar os
cidadãos a deixar seus carros em casa. Na Suíça trens e
bicicletas fazem parte das políticas oficiais para o trânsito.
Em toda a América Latina, grande parte da classe trabalhadora
continua usando a bicicleta para ir para o emprego – seja
porque não tem dinheiro para pagar o ônibus, seja porque
as linhas de ônibus não passam pelas ruas onde moram. Os
pobres latino-americanos e asiáticos usam também triciclos
como veículos de carga ou até transporte de passageiros
– caso da Índia (5).
Renovar
o automóvel – No mundo, há 800
milhões de bicicletas, duas para cada automóvel. E, para
cada carro que sai das linhas de montagem hoje em dia, são
produzidas três bicicletas. Todo sistema de transporte do
mundo e as principais cidades são planejadas com prioridade
para o carro de transporte individual. Mas em termos globais
as bicicletas levam mais pessoas, fazem mais viagens, sem
causar poluição, sem provocar acidentes nem consumir petróleo.
As vantagens dos transportes coletivos ferroviários, embora
menores, são também avassaladoras e não se justifica que
o Brasil não tenha um esquema ferroviário sequer razoável.
Apesar
de tudo, o carro não esta condenado à extinção. Ele pode
ser, também, um veículo ecológico. As políticas públicas
deverão torná-lo um meio de transporte mais caro, cobrando
impostos e pedágios que permitam investir em veículos coletivos
e revolucionando os sistemas atuais. Ao mesmo tempo, o carro
poderá viver um renascimento ecológico com estrutura produzida
em novos materiais e motor movido a baterias solares ou
hidrogênio. Os combustíveis do futuro já estão sendo pesquisados
pelas multinacionais para fazer frente a legislações ambientais
cada vez mais rígidas, como é o caso da Clean Air Act, a
Lei do Ar Limpo, dos Estados Unidos.
Até
o ano 2003, a Califórnia já decidiu que 10% dos seus carros
não lançarão qualquer tipo de gás tóxico à atmosfera, o
que implica a adoção de carros elétricos, únicos que não
lançam poluente algum. Terá chegado, então, a vez do carro
movido a energia solar.
Ao
mesmo tempo, as cidades do próximo século racionalizarão
o uso do espaço. As pessoas morarão perto do trabalho e
estarão ligadas ao resto do planeta por meios de comunicação
avançados, reduzindo radicalmente a necessidade de deslocamento
físico que existia no século 20. Viajar, então, poderá ser
novamente um modo de andar pelo mundo contemplando e aprendendo,
como sugere a tradição do Tao.
Notas:
(1)
O Espírito do Zen, Alan W. Watts, Trad. Murilo Nunes de
Azevedo, Ed. Cultrix, São Paulo, pag. 138.
(2)
La Importancia de Vivir, Lin Yutang, Editorial Sudamericana,
Buenos Aires, 1945, pag. 441 e seguintes.
(3)
The Bicycle: Vehicle for a Small Planet, by Marcia Lowe,
Worldwatch Paper n.90, September 1989, USA.
(4)
Rethinking the Role of the Automobile, by Michael Renner,
Worldwatch Paper n.84, June 1988, USA.
Alternatives
of the Automobile: Transport for Livable Cities, by Marcia
Lowe, Wordwatch Paper n.98, October 1990;
Beyond
the Petroleum Age: Designing a Solar Economy, by Christopher
Flavin and Nicholas Lenssen, Worldwatch Paper n.100, December
1990.
State
of the World, Worldwatch Institute, 1990.
La
Bicicleta y los Triciclos, co-edición de Skat, Cesta, Gate
y Cetal, Chile, 1985,
Banco
de dados da União Protetora do Ambiente Natural.
(5)
A prefeitura de Porto Alegre discute planos para a criação
de ciclovias e bicicletários (estacionamentos de bicicletas),
de acordo com a Lei Municipal número 6.781, de 1989. No
interior do Rio Grande do Sul, algumas cidades têm ciclovias,
como Campo Bom, ou bicicletários, como Esteio. A bicicleta
é muito usada nas cidades pequenas, em todo o País.